AS GRAVAÇÕES DO DISCO SOLO (Clique aqui para ouvir o CD)
O estúdio onde gravei o meu disco "Fernando Deluqui" foi construído originalmente para se fazer propaganda. O fato é que sobrava tempo de monte para eu ficar experimentando minhas idéias. Mesmo assim cheguei a trabalhar muito com trilhas e sonorização de filmes. Mais do que o trabalho técnico em si, conheci em algumas produtoras gente bem bacana. Na produção do meu disco algumas coisas foram importantes. Em primeiro lugar pude encontrar o som da minha voz e trabalhá-lo até chegar exatamente onde queria. Ficava tardes e tardes gravando um canal após o outro, sem emendas. Levava tudo gravado para casa. Inúmeros takes de voz da mesma música foram ouvidos até sentir
diferenças sutis de afinação e timbre. O som da guitarra foi construído com paciência atravéz da soma de canais. Por exemplo, se havia um take de que eu gostava mas o timbre ainda não estava legal, em vez de apagá-lo eu acrescentava outra com o som diferente. A soma era feita com um som mais próximo do que eu queria e deixada o som mais encorpado. Na parte eletrônica, as bases de baixo e bateria foram trabalhadas com facilidade por causa do computador. Eu podia mexer nas bases a vontade sem ter medo de apagar alguma coisa. O Mc Intosh tem programas que mostram a música de forma bem fácil de trabalhar. Os sons midi e de samplers bem trabalhados chegam bem perto de um som tocado por um músico profissional.

Olhos do Brasil - Ultimamente tenho tocado guitarra com a corda mi afinada em ré no grave. Isso dá um som mais potente nos riffs. Esta música teve o instrumental construído em cima de um desses riffs. Eu tinha uma base com guitarra e uma melodia cantada com quase palavras. Uma coisa bem "espírita" mesmo. Fiz isso para descobrir o que a música queria falar. Vi na tv, na mesma época, uma inundação em BH com pessoas penduradas em postes e nas capotas de carros levados pela enxurrada. Fiquei indignado, até porque isso acontece constantemente em São Paulo. Com esse assunto as palavras foram aparecendo.

O Fogo - Por incrivel que pareça, o riff da segunda parte apareceu numa jam session muito louca com Scandurra e o Ignoze, minha banda em 1983. Nunca esqueci o riff e um dia, dez anos depois, com o violão na mão veio a primeira parte. Fiz a letra em seguida e gravei-a várias vezes até chegar na versão que está no disco. É a música a ser trabalhada na tv e rádio. Tem também a participação de Daniel Szafran no piano Fender super swingado.

A Sua Sorte - Esta é a última que sobrou do Louco Vício (projeto montado por mim em 1990). Ficou com a mesma letra, salvo algumas pequenas modificações. Gosto do contrabaixo Gianninni que usei com distorção na gravação.

Pedras - Eu tinha o riff e estava apenas esperando a letra "chegar" no momento certo. Em viagem para Ubatuba com Stefano Dehó (que acabou fazendo o encarte do CD) a letra veio, falando sobre a beleza bruta daquela parte do litoral.

A Ponte - Veio a partir do riff que abre a música. Demorou meses para ser gravada. Quando estava pronta chamei Adriana Mezzadri e Flávia que cantavam com Benjor e o resultado é das coisas mais lindas do disco.

Passageira - Eu namorava uma garota que não pôde ir a uma festa comigo. Fiz a música e letra em meia hora. As pessoas me falam muito dessa música. Ficou uma coisa bem limpa no disco, sem guitarra elétrica.

Até Te Encontrar - Eu estava com um samba reggae bem melódico rodando no estúdio. Saindo pra almoçar eu dei de cara com Péricles Cavalcanti ali na calçada dando uma caminhada. Convidei-o a entrar e ele gostou da base e topou fazer a letra. No dia sguinte ele tinha a letra pronta. Incluí com a maior alegria.

Eu Te Amo - Encontrei com Fernando Zarif num show e me disse que tinha algumas poesias para mostrar. Fui a sua casa e não acreditei!! O cara mandou um texto muito louco que falava "eu te amo" de tudo quanto era jeito, com uma coisa temporal forte. Eu tocava e ele escrevia. Depois de mais de uma semana escrevendo tínhamos letras de "Eu te amo" espalhadas pela casa inteira, literalmente. Foi só dar uma editada e gravar.

Inútil Dizer Que Te Amo - Encontrei Ciro Pessoa na Vila Madalena e fui tocar guitarra pra ele em alguns shows. Um dia no estúdio eu dedilhei o refrão de uma sequência harmônica que tinha aparecido há alguns dias e ele sacou de primeira cantando, "inutil dizeeer que te amo" . Chapei na hora, demos as mãos e ficou combinada a parceria. No dia seguinte ele mandou um fax com a letra.

Ao Deus Dará - Vi uma entrevista não lembro de quem, mas aquilo me incomodou. O "artista" estava super preocupado em vender disco mas não sabia falar. Não me lembro do resto, só que as guitarras são cinco ou seis fazendo praticamente a mesma coisa. Fiquei dias mixando e ouvindo aquilo alto, muito alto.

O Vagabundo - Eu tenho uma letra muito engraçada chamada "O vagabundo" , que não se encaixava no resto do disco. Mas eu gostava daquela melodia e achava que um instrumental podia cair bem no final. Fiz tudo muito rápido e gravei quatro ou cinco canais de guitarra de uma vez. Depois tirei o que não tinha ficado legal e fim.

Sentimento - Tinha visto um show do Cidade Negra e uma canção que falava "um sentimento bom não trai, não trai" ficou na minha cabeça. Era para ser um reggae mas não era fácil programar aquilo. Depois, experimentando com o violão encontrei uma atmosfera "luau" que tinha tudo a ver com a letra. Dobrei várias vezes o violão com cuidado para não perder a definição e convidei Luíz Waack e o Dani Krotozynski que eram sócios no estúdio pra tocar bandolim e baixo. Ficou demais.

Dia De Mudança - São várias histórias contadas como se fossem uma só. Era uma demo cantada enquanto eu fumava pela manhã, etc.. O lance é que tudo tinha sido tocado tão a vontade que eu não poderia reproduzir aquele clima numa regravação. Consertei alguns pedaços da voz e deixei como estava.
por Fernando Deluqui